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Australia, Inverno de 2007.

"Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu
Mas nele é que espelhou o céu"

Fernando Pessoa

Caros rotarianos,

Primeira descoberta: teclados australianos não tem acentos nem cedilha, favor desculpar meu Português falho! Informacoes sobre a Australia a Internet proporciona e eu, não diferentemente dela, o farei, caso desejado, em um discurso ao meu Rotary Club quando desembarcar na terrinha. Mas, agora, escrevo para contar o que não se diz, escrevo para contar o que se sente.

Durante os ultimos cinco meses esperei o momento certo de dizer as coisas certas. Que boba... O futuro nos espera na próxima esquina, incerto, e a única pista que nos resta é aquela onde o tráfico corre e por vezes, engarrafa, que é pra dar tempo de tomar fôlego. Hoje, 27 de junho, meio do caminho, meus pés querem escalar a Ayers Rock e meus braços querem abraçar o Cristo Redentor, "porque metade de mim é saudade e a outra metade é partida".

O primeiro mes foi o mais difícil.. De coragem a nostalgia, mil coisas senti quando me vi atravessando a Harbour Bridge em Sydney, dentro de um carro que dirigia no outro lado da via, com uma mala atrás, um ano pela frente e tudo que, ate então era meu mundo, do outro lado mundo. Lah estava eu, na terra onde aborígenes, surfistas, fazendeiros, súditos da Rainha da Inglaterra e animais exóticos convivem em quase perfeita harmonia, o Sol se põe as 21h no verão e as 17h no inverno, as pessoas tomam banho de mar devidamente vestidas em shorts, camisetas e bonés, comem abacate com presunto e abacaxi com bacon, bebem agua da torneira sem medo de ser feliz, colocam mais pimenta e menos sal na comida, menos açúcar no café, pagam um salário aos desempregados; a cada dia eu me descobria forte, ainda que jamais imune contra a inédita e, por sinal, impressionante homesickness. Essa dai, da mesma maneira que vinha do nada me apertar o peito, ia embora do nada escorrida junto com as lágrimas. Mas, com aquele jeitinho brasileiro e a fé que não costuma falhar como jogo de cintura, logo, logo, vem o encanto diante do leque de possibilidades, diferenças e novidades que se abria (e tem se aberto).

Sydney, Canberra, Melbourne, Adelaide, Jervis Bay, Wollongong, Kiama, Cairns, Kuranda, Alice Springs, Byron Bay, toooooda a Gold Coast, Coober Pedy, Marla Bore, Kings Canyon, Port Augusta, Airlie Beach, Whitsundays Islands, um pedaço do Outback, Wagga Wagga, Dubbo, Young, Hay e as demais cidadezinhas ao redor de Young... Já diria uma canção australiana que virou hino entre os intercambistas no Safari: "I've been everywhere, man! I've been everywhere..." Em cinco meses, de ônibus, de trem, de aviao, mas principalmente, com a indiscutivelmente poderosa mágica do Rotary, percorri mais de 10 000 km em território australiano, fiz amigos dinamarqueses, franceses, suíços, japoneses, suecos, tailandeses, mexicanos, alemães, noruegueses, finladeses, belgas, chilenos e austriacos; provei comida indiana, senegalesa, malasiana, tailandesa, carne de canguru; escalei a gigantesca Ayers Rock, brinquei com animais selvagens (incluindo uma cobra de 3 metros), me descobri tão talentosa com bumerangue e didgeridoo (instrumento musical aborígene) quanto os norte-americanos com a bateria da Mangueira, subi as escadarias da Opera House, velejei, voei de monomotor, dei uma voltinha de camelo, fiz snorkeling no Pacífico, mergulhei na famosa Great Barrier Reef (Grande Barreira dos Corais), joguei golfe, assisti a Liga de Rugby no estádio.. Tantas, tantas, TANTAS aventuras que nem meus muitos gigabytes de fotos e vários outros mais de música seriam capazes de falar nessas linhas!

Mas, tudo isso não é sobre onde você esta e o que você tem, mas o que você é e quem você tem. Desde Clare e Philip Brown, minha 1a host family, esperando por mim no aeroporto ate a bibliotecária da escola aqui no meu lado perguntando se eu quero o aquecedor ligado contra esse inverno de 5 graus lah fora, soh tenho encontrado pessoas maravilhosas no caminho. Todas elas. Durante todo o percurso. O Rotary na Australia é admirável! O amparo, o interesse, o carinho, a eficiencia, a organização, a disponibilidade, os projetos, a competência ao cuidar de grandes decisões e mínimos detalhes... Fatores que, reunidos, dão uma segurança fundamental ao jovem intercambista e constituem uma rede coesa tanto de contatos ao redor do mundo quanto contato direto com a comunidade. Tenho profunda gratidão e consideração por todos os membros do meu Clube assim como dos demais clubes que pude conhecer nas Conferências e em especial, Sue Gordon, minha brilhante e sempre presente conselheira; os Brown; Vickie e David Clark (recem-eleito presidente do Rotary Club em Young), minha divertidissima e atual host family; meus amigos internacionais que fizeram do meu Safari mais do que um intercambio cultural, mas, uma troca de experiencias de vida.

Alias, tenho aprendido muito sobre o mundo, sobre essa tal de vida e sobre mim mesma. Jah não sou a mais a mesma, maezinha... Mas, vou ser sempre a garotinha do preto pai! Ser feliz é ser agora. Viver um dia de cada vez, viver tudo, viver todos. Inclusive as pendências, as impotências, os fracassos, as fraquezas... Digo, então, que nesse mundo, navegar é preciso. Ainda que viver não tenha lah muita precisão.. Mesmo em tempos de alto-mar, mesmo que não se enxergue nada alem de sal, ainda há a exatidão dos portos seguros, dos navios ancorados, da dinamica das mares. E ainda bem que estamos flutuando, bem aqui, bem em cima. Porque sem fé, independente da rota dela, eu seria só chão de mar. Quando penso que quase já não posso mais, percebo que, nas altura dos meus olhos, unindo o céu e a Terra tá o horizonte. E só ao infinito dele eu proponho que me limite.

Obrigada aos companheiros do Rotary Brasil envolvidos na realização dessa inesquecível experiência.

Obrigada família e amigos pelo amor e paciência.

Obrigada a todos pela atenção.

Naiara Lemos Silva

 
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